Projeto prevĂȘ recursos do crĂ©dito rural a fintechs
- Bart Digital
- 7 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 25 de mai. de 2022
Ideia Ă© que startups financiem produtores com parte do dinheiro que os bancos tĂȘm que destinar obrigatoriamente a emprĂ©stimos no campo.

Governo, bancos e startups que atuam no financiamento do setor agropecuårio trabalham na montagem de um mecanismo que permitirå aos bancos repassar parte do dinheiro dos recursos obrigatórios, captados pelos depósitos à vista, para as fintechs emprestarem aos produtores. A ideia é que as startups criem fundos de investimentos e vendam cotas para os bancos, que pagariam com os valores das exigibilidades do crédito rural. O potencial estimado é de, pelo menos, R$ 20 bilhÔes por safra.
As fintechs podem usar tanto a estrutura dos FIDCs (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios) como do recém-criado Fiagro (Fundo de Investimento nas Cadeias Agroindustriais), com vantagens fiscais após a derrubada dos vetos presidenciais pelo Congresso Nacional. Os valores poderiam financiar também o custeio agropecuårio.
A iniciativa pode, ao mesmo tempo, melhorar o fluxo de crédito rural para o pequeno produtor, fomentar a entrada de novos agentes financeiros nesse mercado e facilitar às instituiçÔes financeiras o cumprimento das exigibilidades de aplicação no setor. Com mais recursos, as fintechs aproveitariam melhor sua capilaridade, que permite que atuem perto dos produtores. A iniciativa também tem potencial de baratear e desburocratizar o acesso ao crédito na ponta.
âA ideia Ă© utilizar os fundos de investimentos como fonte entre bancos e o Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar]. Isso pode aumentar a capilaridade de acesso ao Pronaf, para que mais produtores sejam atendidos de forma menos burocrĂĄtica, mais rĂĄpida e digitalâ, afirmou ao Valor o subsecretĂĄrio de PolĂtica AgrĂcola e NegĂłcios Agroambientais do MinistĂ©rio da Economia, RogĂ©rio Boueri.
A medida ajuda ainda a resolver um âproblemaâ dos bancos privados, que Ă© cumprir as exigibilidades de aplicação em crĂ©dito rural, principalmente para os pequenos produtores. Atualmente, 27,5% da mĂ©dia de captação dos depĂłsitos Ă vista devem ser destinados aos financiamentos do campo com juros controlados. Na prĂłxima safra, o percentual cairĂĄ para 25%, mas o volume disponĂvel aumentou cerca de 20% com a pandemia. As instituiçÔes que nĂŁo utilizam emprestam todos os recursos obrigatĂłrios pagam multa ao Banco Central.
Os bancos jĂĄ repassam parte desses valores para outras instituiçÔes, como cooperativas de crĂ©dito, por meio dos DepĂłsitos Interfinanceiros Vinculados do CrĂ©dito Rural (DIR). De dezembro de 2020 a abril deste ano, o valor movimentado foi de R$ 7 bilhĂ”es. Desde o inĂcio da safra, em julho do ano passado, os repasses somam quase R$ 20 bilhĂ”es. A maior parte desse volume Ă© destinado Ă agricultura familiar.
As startups veem potencial para movimentar os fundos e distribuir financiamentos aos produtores de forma mais ĂĄgil e a boas taxas de juros. A iniciativa pode criar um canal de abastecimento direto das fintechs, que hoje buscam recursos no mercado financeiro para repassar aos produtores. âNo agronegĂłcio, alĂ©m de buscar boas taxas, Ă© importante que o acesso seja rĂĄpido, pois o produtor tem janela para comprar insumos e aplicarâ, diz Mariana Bonora, diretora da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). âTemos capacidade de criar novos modelos de distribuição, dar escala a novos formatos, mais rĂĄpidos que as instituiçÔes financeiras, e desburocratizarâ.
A associação tem 15 startups que atuam no financiamento agropecuĂĄrio, mas Bonora diz que empresas de outros ramos, como de prestação de serviços no campo, podem começar a ofertar crĂ©dito justamente pela proximidade aos produtores. âCom possibilidades maiores e mais vantajosas, as agtechs que nĂŁo sĂŁo exclusivas vĂŁo passar a atuar nesse sentidoâ, destacou. Segundo o segundo o Radar AgTech Brasil, levantamento feito por Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens e publicado em maio, existem 52 fintechs com atuação no agronegĂłcio em todo o paĂs.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apoia a ideia. âA iniciativa tem o poder de eliminar algumas barreiras para oferta de recursos do crĂ©dito ruralâ, disse, em nota. O impasse em torno do assunto estĂĄ na validação do cumprimento das exigibilidades. Bancos e fintechs querem que ela seja feita assim que a instituição financeira comprar as cotas do fundo e repassar o recurso. O governo avalia que Ă© preciso comprovar que o dinheiro chegou ao produtor e foi usado para financiar a produção. Assim que a questĂŁo for resolvida, a proposta serĂĄ levada ao Conselho MonetĂĄrio Nacional (CMN) para aprovação.
